Um novo socialismo é possível!

Entrevista com o monge Marcelo Barros

Nhanduti Editora: Marcelo, em seus escritos e entrevistas
recentes, você tem insistido muito sobre o novo bolivarianismo
presente nos processos sociais e políticos de vários países
sul-americanos e defende a participação da Teologia da
Libertação nesse caminho. Por qué? 

Marcelo Barros: Os movimentos indígenas, negros
e camponeses na América Latina têm caráter leigo e são
autônomos. Entretanto, em sua formação e história, muitos
deles tiveram participação ativa e fecunda de homens e
mulheres cristãos que se engajaram nisso a partir de sua fé.
Nisso, a teologia da libertação teve uma importância
fundamental. É preciso que essa inserção dos cristãos
continue e se atualize. Insisto nisso para incentivar os
irmãs e irmãs teólogos a intensificarmos a nossa inserção.

N.E.: Você fala em “novo socialismo para o século XXI”.
Um militante espanhol protestou: depois do fracasso
e das experiências terríveis dos partidos socialistas
em países europeus, como ainda ter coragem
de falar em Socialismo?

M.B.: Exatamente pelo fato de que o termo Socialismo
foi deturpado e corrompido, é que temos de limpar
a palavra e libertar o seu verdadeiro conteúdo.
Aqui na América Latina, a fé cristã foi usada para
legitimar impérios opressores e o próprio nome de Deus
foi usado para fazer guerras. E daí? Por isso, deixaríamos
de falar em Deus ou de assumir a fé cristã? Não.
Temos de reconhecer a sujeira e libertar dela os conceitos.

N.E.: O professor Boaventura de Souza Santos afirma: “A América Latina tem sido o continente, onde o socialismo do século XXI entrou na agenda política”[Cf. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico. In Caros Amigos, março 2010, p. 42.] David Choquehuanca, ministro das Relações Exteriores da Bolívia e especialista em cosmovisão andina, rejeita para este processo o título de Socialismo. O que está por trás dessa discussão e qual sua posição sobre isso?

M.B.: É inegável que em vários países da América Latina, há um processo social novo no sentido de um socialismo de cara diferente do tipo de socialismos que, até agora, o mundo tinha conhecido. David Choquehuanca rejeita o nome Socialismo para a revolução indígena que tomou conta da Bolívia, porque, tanto o Capitalismo, como mesmo o Socialismo que sempre se conheceu, privilegiam (cada qual do seu modo), a questão econômica e o dinheiro. Diferentemente disso, os novos processos sociais no continente devem se basear no conceito indígena do Bom Viver. Penso que é isso que está ocorrendo no novo processo bolivariano que é de natureza socialista, mas a partir dos movimentos populares, das comunidades indígenas e afrodescendentes.

N.E.: Você convida as comunidades cristãs e a Teologia da Libertação a participar desse processo, mas parece que, de fato, a Igreja tem se pronunciado contra tanto o processo bolivariano na Venezuela, como o processo atual político do Equador e da Bolívia. Por qué?

M.B.: Antes de mais nada, precisamos esclarecer: não é “a Igreja” que tem se pronunciado contra essas experiências novas. Nos países que você citou, conheço muitas comunidades eclesiais, muitos padres e religiosos engajados e comprometidos com esses processos que formam a Igreja real na América Latina e nunca se pronunciaram contra esse processo. Foram bispos e cardeais que, em algum momento, se pronunciaram negativamente e o fizeram mais sobre presidentes da República e governos do que avaliando o processo em si. Não posso dizer porque ou baseado em que fizeram isso porque não me compete falar em nome deles ou interpretar as declarações deles. Mas, não me parece que, ao fazer isso, representem a maioria do povo e mesmo dos católicos do país. Representam mais a sensibilidade e pensar de uma elite.

N.E.: Pode ser, mas a hierarquia da Igreja sempre rejeitou
qualquer tipo de Socialismo.

M.B.: Apesar de todo mundo reconhecer que o Cristianismo
primitivo vivia e propunha para as comunidades uma forma
de Socialismo. Além disso, nas últimas décadas, vários
bispos latino-americanos se pronunciaram profeticamente
favoráveis a um novo socialismo. Por exemplo, Monseñor
Sergio Mendes Arceo, quando bispo de Cuernavaca (México)
fez  várias declarações favoráveis ao Socialismo. Também
Dom Hélder Câmara iniciou um diálogo criativo com
o Socialismo e em uma carta circular de 1965 defendia
o processo do bolivarianismo latino-americano. Isso sem
falar em Mons. Oscar Romero, Dom Pedro Casaldáliga,
Dom Tomás Balduíno e tantos outros bispos e pastores
que atuaram no mesmo sentido.

N.E.: Seu novo livro “Para onde vai Nuestra América”
que a nossa Editora Nhanduti está publicando tem como
subtítulo “Uma espiritualidade para o século XXI”.
Muita gente estranha esse conceito de “espiritualidade
socialista”. O que de fato significa isso?

M.B.: Espiritualidade significa acessar e viver profundamente
o melhor que a pessoa tem dentro de si mesma. Nas tradições
religiosas, em geral, isso só se pode viver comunitariamente
e não cada um de forma isolada. Aí já existe um processo de
socialização. No caso do Cristianismo, acreditamos que
a espiritualidade é viver isso deixando-se conduzir pelo Espírito
Divino. Ora, ele é o Espírito de amor que sempre nos conduz
à comunhão uns com os outros e à construção de um mundo
mais justo e fraterno. Assim sendo, o próprio caminho
espiritual tem uma dimensão social. Por outro lado, aqui
na América Latina, o processo bolivariano que parte das
culturas indígenas, negras e da tradição do nosso povo,
em sua maioria, de formação cristã, também tem uma
dimensão espiritual. Precisamos valorizar e aprofundar essa espiritualidade que, por isso, pode sim se chamar socialista.

N.E.: Ao “canonizar” como sendo espiritual o processo bolivariano na Venezuela, indígena na Bolívia e cidadão no Equador e o processo emergente em outros países do continente (Uruguai, Peru, Nicarágua, El Salvador, etc), de certa forma, você não propõe equivocadamente uma espécie de nova Cristandade, dessa vez, de esquerda e socialista? 

M.B.: Primeiramente, falar em “Cristandade socialista ou de esquerda”, para mim é como falar em roda quadrada. Cristandade significa um regime cristão dominado pela Igreja e na qual a hierarquia é o poder hegemônico. O Socialismo bolivariano supõe a radicalização da democracia e é para tornar hegemônicas as comunidades populares. Então, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Além disso, eu não proponho um socialismo cristão. Proponho os cristãos entrarem e participarem de um processo socialista laico e autônomo e proponho que façamos isso assumindo uma espiritualidade macro-ecumênica que valorize as tradições espirituais indígenas e negras e seja aberta a todas as religiões e tradições espirituais e não apenas às Igrejas cristãs.

N.E.: Então, como seria essa nova espiritualidade socialista?

M.B.: Ela deve ser um caminho pessoal no sentido de interior e profundo em cada pessoa, mas, ao mesmo tempo, vivido comunitariamente, ou seja, em grupo, ou na inserção concreta nos movimentos populares. Como toda espiritualidade, consiste em um caminho de conversão pessoal e comunitária, transformação do nosso ser no sentido do que os orientais antigos chamavam de “divinização do nosso ser mais profundo”. Para os cristãos, isso é graça do Espírito. Como instrumentos para isso temos de buscar sempre a palavra de Deus nas escrituras, na comunidade e nos acontecimentos da vida. Temos de aperfeiçoar como uma verdadeira mística a capacidade de escuta e de solidariedade com os mais carentes. A espiritualidade clássica se baseou demais na concepção de pecado, culpa e redenção. Uma espiritualidade nova e socialista não nega que isso exista, mas insiste que o mais fundamental e maior do que tudo é a bênção divina, a sua presença amorosa no universo refazendo a cada momento a criação e portanto temos de viver o cuidado ecológico como prática espiritual. Há muitos outros elementos, mas um dos mais importantes é viver o compromisso social e político como exercício de caminho espiritual, ou seja, de encontro com Deus.

N.E.: Há algum outro elemento que você percebe hoje que falta em seu livro “Para onde vai Nuestra América”?

M.B.: Todos os meus livros, se os releio hoje, sempre tenho a sensação de faltar alguma coisa e principalmente em um assunto como esse, a cada dia podemos atualizar e melhorar o que foi dito. Sempre digo às pessoas que me lêem que toda crítica e correção serão benvindas. O livro não tem como finalidade dar um ensinamento acabado, mas puxar o assunto e provocar um aprofundamento que devemos sempre continuar.

N.E.: Que mais você gostaria de deixar como mensagem para nossos leitores e leitoras?

M.B.: A espiritualidade se aprende na prática. Atualmente na América Latina, há uma conspiração coletiva e quase unânime da grande imprensa contra o caminho bolivariano. Carlos Mesters dizia das Cebs em 1977 que eram como uma flor bela e frágil. Penso que isso se pode dizer hoje do processo da revolução bolivariana. Ela precisa do nosso apoio e da nossa confiança, como de um assunto de fé. Eu creio nisso como creio que o reino de Deus tem de ter mediações. Mesmo imperfeitamente e certamente com falhas, esse processo é um processo no qual encontramos a presença e ação divinas. Na Venezuela, na Bolívia, no Equador, os governos populares e as comunidades precisam do nosso testemunho de participação. Infelizmente o Brasil ainda não entrou para valer nesse processo. Cabe a nós começar pelas bases e a partir de baixo a tomar esse caminho.

Que o Espírito de amor do universo, presente em todo caminho de justiça e solidariedade os abençoe e os acompanhe agora e sempre. Um abração a todos.


Recife (Brasil), 14 de setembro de 2011

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