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Título: Religión y Poder en las Misiones de Guaraníes
Assunto: Missões jesuíticas, História da América do Sul
Autor: Guillermo Wilde
Formato: 16x23
Número de páginas: 509
Editora: Editorial SB 2009
ISBN: 9789871256631
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Guillermo Wilde

Religión y Poder en las Misiones de Guaraníes
(Religião e Poder nas Missões dos Guarani)

Título: Blocos temáticos do conteúdo

Civilidade e ordem simbólica (pp. 49-82)
Jesuítas, mburubichas e “feiticeiros” (pp. 87-116)
Espaços de ambiguidade (pp. 123-152)
Fronteira, guerra e agência (pp. 157-174)
A expulsão dos jesuítas (pp. 183-205)
Padres, administradores e cabildantes (pp. 211-230)
O retorno dos antepassados (pp. 241-261)
O paradigma da mobilidade (pp. 265-301)
Americanos de outro idioma (pp. 307-325)
Os filhos de Artigas (pp. 335-355)
Êxodo e memória (pp. 359-380)
Epílogo: Encontro e devir (pp. 383-453)
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Carlos Fausto (Museu Nacional, U.F. de Rio de Janeiro)
Prefácio:

Título: Na esteia de uma nova historiografia das missões, Wilde recorre com rigor e criatividade a um vasto conjunto de fontes, muitas delas inéditas e dispersas em arquivos de vários países, para reconstruir a experiencia guarani em sua inserção no sistema colonial entre os séculos XVII e XIX. O livro é resultado de análises rigorosas das fontes, típicas do ofício do historiador aliado, por um lado, a um olhar antropológico preocupado com as perspectivas indígenas e, por outro, a um olhar sociológico voltado para as circunstâncias sócio-históricas que determinaram em cada época um campo de ações possíveis dentro da estrutura colonial.
Título: Dessa combinação interdisciplinar e de uma narrativa enfocada em eventos críticos da história guarani emerge uma nova imagem dos Guarani reduzidos: de receptáculos passivos dos ensinamentos jesuíticos, os índios passam a ser agentes culturalmente informados, negociando e apropriando novos instrumentos, relações, imagens e ideias dentro de um quadro sócio-político estruturado, mas também móvel, ambíguo e conflitivo. Na pluma de Wilde ganham vida inumeráveis personagens guarani, com nome e sobrenome, movendo-se em situações sociais singulares, de modo que ele nos oferece uma visão em escala biográfica de eventos e estruturas já narrados em escala maior. Com a mudança de escala, os “Guarani de papel” ganham nova vida, agora de carne e osso.
Título: Wilde recupera com brilho acadêmico e literário a textura densa e singular dos contextos em que os Guarani estavam inseridos ao longo de mais que 200 anos. Nessa trama sobressai uma elite guarani que exercia cargos executivos, dominava diversos ofícios artesanais, tocava instrumentos musicais e escrevia em espanhol, latim e guarani. O livro também nos leva a imaginar os destinos menos visíveis daqueles índios cujos nomes se perderam para sempre e que entravam e saíram do sistema reducional, que negociavam com os “infiéis”, que levavam e traziam novas ideias e imagens, circulando entre a selva e as aldeias.
Título: Não é só contra a imagem edificante e homogeneizante da experiencia reducional que Wilde escreve. Informado pela etnologia amazônica contemporânea, o autor questiona imagens mais recentes acerca dos Guarani, especialmente aquelas que se estruturaram em torno das obras de Pierre e Hélène Clastres. Há uma curiosa inversão na paisagem das obras edificantes para estas modernas. Enquanto se realizavam nas primeiras a mais exemplar das conversões (de índios infiéis a perfeitos cristãos) e um salto civilizatório (da vida móbil à vida civil), na segunda adquire relevo uma essência guarani impermeável que busca “permanecer em seu próprio ser” e resiste a qualquer transformação.
Título: A paisagem da conversão à tradição teve como dobradiça a obra de Léon Cadogan, que reverteu o movimento jesuítico em seu oposto: da missão voltou à selva, onde encontrou índios guarani com uma suposta tradição intocada pela experiência reducional, autores de “belas palavras” que, na expressão de Pierre Clastres, “ressoam no mais secreto da selva […] ao abrigo de toda mancha” (1974:7-8). O suposto tradicionalismo guarani se transformou em uma das imagens-força mais marcantes da literatura antropológica dos anos 1970 e 1980, e serviu inclusive a uma nova produção literária edificante, desta vez inspirada no Concílio Vaticano II e na Teologia da Libertação.
Título: A ambos os processos da purificação literária – a jesuítica e a clastriana – é comum a necessidade de demarcar fronteiras inequívocas: interior e exterior não se devem mesclar nem pode haver uma terceira posição entre índios reduzidos e índios infiéis (ou entre Guarani autêntico e índio deculturado). Como mostra Wilde, a imagem purificada das reduções não corresponda à realidade: os jesuítas jamais conseguiram impor limites impermeáveis em torno delas; as utópicas Cidades de Deus em meio à selva eram porosas e se conectavam com redes sociais mais amplas, um fato que fica patente durante a chamada “Guerra Guaranítica”. […].
Título: Progressivamente, o sistema reducional que garantia certa autonomia e uma identidade às populações guarani-missioneiras foi se desmoronando. Novas dinâmicas sociais e novos atores entraram em cena. Partes da população reduzida desapareciam na obscura invisibilidade da mestiçagem, enquanto outras se reconstituíram como coletivos indígenas. Já que sou antropólogo, a obra de Wilde me convida a imaginar o que teria acontecido nesse intervalo de tempo que separa a queda das aldeias missionais e os estudos antropológicos sobre os Guarani no século XX. Sobretudo me leva a pensar como esses coletivos recriaram um mundo indígena e uma memória particular da história missioneira. […].
Título: Como nos mostra Wilde, houve redefinições importantes na relação entre religião e poder. Se no passado pré-colonial as figuras do líder guerreiro e do pajé estavam intimamente associadas, nas reduções tinham que ser rigidamente diferenciadas: os pajés caíram em desgraça e foram substituídos pelos sacerdotes cristãos, enquanto os líderes de cacicados foram legitimados e inseridos em uma estrutura hierárquica colonial. […].
Título: Há certa dose de ironia no desfecho, pois, finalmente derrotada, a experiencia reducional acabou sobrevivendo, em certo sentido, como tradição indígena. No entanto, não há aqui nenhum espectro de inautenticidade, pois essa capacidade de se inscrever pelo revés, fazendo de si mesmo outro, é com certeza caracteristicamente indígena. (p. 11-13)
Título:

Títu

TítuloTIntrodução

TítuloTEste livro tem o propósito de reconstruir e analisar uma série de situações locais que ocorreram no longo período que vai desde o início do século XVII até meados do século XIX no espaço que abarcou as aldeias guarani das missões. A partir dessas situações procuro compreender, em primeiro lugar, o processo histórico de formação de uma comunidade política heterogênea, a saber, as missões dos Guarani, e os mecanismos simbólicos pelos quais atualizou seus limites no decorrer dos séculos. Em segundo lugar, o modo como os indígenas, em particular as figuras nativas de autoridade, os líderes guarani missioneiros, intervieram nesse processo e nele se inventaram, interagindo com outros setores da sociedade colonial. Esses dois aspectos pressupõem a existência de certa “agência indígena”, cuja natureza e sentido histórico devem ser entendidos em cada um dos episódios abordados. Nesse sentido é interessante perguntar como esses atores construíram sua legitimidade e como se vincularam com o Estado da época, em que consistia a lógica na base de suas ações e movimentos, como operou a memória na construção de sua identidade histórica. Acerca destas figuras e relações proponho uma hipótese geral: que os líderes indígenas e seus seguidores foram a base da organização política missional e o fundamento de sua continuidade e dinamismo. […]
TítuloO “Guarani missional” é o resultado de um complexo processo de etnogênesis, do qual participaram grupos e atores sócio-culturais muito distintos durante um período prolongado. Trata-se de uma configuração histórica singular que foi se transformando ao longo do tempo. A análise de suas continuidades e mudanças é uma preocupação central desta pesquisa e exige o tratamento simultâneo de vários níveis de leitura das fontes, às vezes contraditórios, que remetem tanto a processos concretos como a diferentes sentidos da história. […].
Título:As fontes sobre os Guarani missionais parecem intermináveis e certamente estimularão futuros interesses. Contudo, estou convencido de que não é essa prodigalidade de fontes que enriquece este fascinante campo de estudo, mas a inquietude de descobrir aquelas que verdadeiramente se destacam para os questionamentos apresentados pela pesquisa, inclusive revelando novas leituras e indícios nas fontes já conhecidas. Um vestígio transforma-se em fonte quando é questionado. Uma só página de um documento fragmentário e incompleto às vezes contribuiu mais pistas a este trabalho do que vários arquivos exuberantes. […] A vitalidade da fonte manuscrita e a relação que construímos com ela vincula-se com aquilo que Walter Benjamin chamou de aura, ainda que sua magia não só resida em sua irreproduzibilidade técnica, mas no corte temporal e espacial que nos distancia. Minha maior aspiração é que estas páginas possam despertar novos questionamentos para a pesquisa futura. (pp. 23.24-25.47)
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