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Título: El don, la venganza y otras formas
Título: de economia guaraní
Assunto: Cultura guarani, etnografia, linguística
Autor: Bartomeu Melià, Dominique Temple
Formato: 15,5x21,5
Número de páginas: 258
Editora: CEPAG 2004
ISBN: 99922589507
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Bartomeu Melià, Dominique Temple

El don, la venganza y otras formas de economía guaraní
(O dom, a vingança e outras formas de economia Guarani)

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R$ 104,40

Introdução:
Título: Os estudos que apresentamos aqui partem de observações concretas que, por sua vez, nos colocam diante de questões de caráter universal. E se utilizarmos temas geralmente tidos como antropológicos ou históricos, é porque estes nos conduzem a uma reflexão filosófica mais geral.
Título: As observações desenvolvidas não dizem respeito somente ao patrimônio de uma sociedade particular, mas àquilo que podemos considerar a memória do futuro. Precisamos destacar e revelar aquilo que, desde as origens da humanidade, permanece intangível e primordial em todas as comunidades do mundo: as matrizes dos valores humanos.
Título: Por que não fazer isto se somos convidados pela própria tradição dos Guarani que sabem ordenar não só as imagens poéticas, mas também os usos das coisas mais prosaicas de cada dia, mediante intuições místicas de grande clareza e pureza? Pensemos, para começar, na figura da Terra-sem-Mal, na qual os Guarani souberam concentrar como em um diamante todo o resplendor de uma utopia e toda a densidade do real.
Título: Estaria enganado, porém, quem pensasse que propuséssemos o renascimento e a restauração de um pensamento arcaico, a utopia de um passado e estaria equivocado mais ainda quem imaginasse que sugeríssemos uma espécie de folclorismo conservador que procura salvaguardar valores e práticas chamadas tradicionais, mas separadas do sistema total a que estes valores pertencem, como ocorre com os que reduziram o jopoi – o dom mútuo – a uma prática de presentes ocasionais, mas desligada de qualquer referência a um sistema coerente de economia.
Título: Como se verá ao longo destas páginas, a economia da reciprocidade não é um sistema de intercâmbio, não se baseia no interesse por si mesmo, mas no interesse pelo outro; quer dizer, seu fundamento é o gesto do dom, totalmente ignorado pela natureza.
Título: A justificativa de tal gesto – que, para a economia ocidental do livre câmbio, é tanto um paradoxo como uma irracionalidade, já que ele pretende respeitar as leis da natureza – é precisamente o fazer aparecer algo que pode ser chamado sobrenatural. O respeito ao outro, o reconhecimento do outro, tem algo de singular e admirável: faz descobrir não somente o outro em si mesmo, mas aquele novo que nasce entre o outro e si mesmo enquanto humanidade. E já que não está dentro das coisas dadas e recebidas, e menos ainda dentro das coisas intercambiadas, esse valor é o que constitui toda a diferença entre a economia de intercâmbio e a economia de reciprocidade.
Título: Contudo, por que falar de economia quando se trata de produzir valores humanos? Precisamente por isto: porque a reciprocidade de dons é a matriz dos valores humanos; ela induz e estimula imediatamente uma produção econômica, já que, para dar, é necessário produzir.
Título:
Título: 1. Entre todas as preocupações do ser humano, uma das primeiras é viver nesta terra, portanto, aproveitar os recursos naturais e repartir sua riqueza, para que desapareçam o sofrimento, a indigência, o trabalho pesado e a dor trazida pela doença. É por isto que os homens e mulheres de todos os tempos têm procurado organizar a produção da melhor maneira possível. Pois bem, já que na economia de reciprocidade o objetivo primeiro e imediato é o bem do outro, a economia de reciprocidade destrói imediatamente a pobreza no mundo. Ela é, portanto, o princípio universal ao qual podemos nos referir para apresentar uma alternativa aos sistemas de produção que estão orientados para o crescimento ou para o sucesso de uns em detrimento dos outros; quer dizer, aqueles sistemas que crescem em favor de alguns mediante o crescimento da pobreza de outros, às vezes em proporções alarmantes e insuportáveis no prejuízo para os últimos.
Título: A primeira parte procura mostrar o modo como a economia de reciprocidade era e é vivida pelos Guarani até o ponto de terem construído a figura e ideia da Terra sem Mal – yvy marane’y – na qual constam tanto a teoria de seus valores como sua prática. O trabalho em comum, na forma chamada potirõ, estabelece as condições que possibilitam a economia de reciprocidade dentro de um sistema complexo e ao mesmo tempo muito coerente. Uma reflexão propriamente filosófica ajudará a ver em seu conjunto e a sistematizar o que os dados e experiências históricas e antropológicas aportaram desde seu campo específico. 
Título:
Título: 2. Esta economia de reciprocidade nasce de várias formas de reciprocidade, uma das quais – certamente não a menor, e capaz de surpreender por sua figura chamativa – é a reciprocidade de vingança.
Título: A vingança apresenta em si uma dificuldade muito grande. De fato, constitui-se em um imaginário paradoxal da consciência ética, já que a própria reciprocidade é a matriz do sujeito, da consciência ética, qualquer que seja o meio que utiliza: a hospitalidade, o dom ou a vingança… O meio que utiliza repercute no valor, marcando-o num imaginário particular, seja este o prestígio, a honra…
Título: Na segunda parte analisamos os dados históricos e antropológicos disponíveis acerca da vingança e da antropofagia entre os Tupinambá e os Guarani, para desembocar, como já fizemos na primeira parte, numa reflexão filosófica sobre os fundamentos e o sentido da vingança e da antropofagia dentro de um sistema de reciprocidade; em outros palavras, verificamos o sentido da reciprocidade negativa, cuja metáfora e prática aperfeiçoadas é a antropofagia.
Título:
Título: 3. A dificuldade de compreender um sistema econômico a partir do valor humano dá origem a uma série de quid-pro-quo, de confusões e mal-entendidos que vêm se dando desde o primeiríssimo contato de Colombo com os índios da América, de tal maneira que o “descobridor” se faz, já desde o primeiro dia, seu “encobridor”.
Título: O encobrimento da América se reproduzirá como fungo venenoso cada vez que os europeus – e todos que se inscrevem em sua economia, sejam eles de onde for – desembarcam na mais mísera ou mais rica praia deste continente, seja atingindo a costa do Brasil ou entrando pelo Rio de la Plata, chegando ao Paraguai.
Título: Será que o manto encobridor é tão opaco e tão extenso que impede que a luz original surja por algum resquício ou fissura? Como no mito dos Aché-Guajakí, onde o pote da noite teria tragado todas as cores do dia, impedindo qualquer novo amanhecer?
Título: No entanto, houve na história ensaios de compreensão recíproca, como se o sistema Guarani pudesse esclarecer o novo pensamento que irrompeu no horizonte e ainda impor-lhe sua própria luz. Este foi o caso dos jesuítas que vieram, convictos dos princípios da claridade e da comunhão cristã primitiva no modo de vida dos Guarani. No mesmo momento em que os jesuítas pensavam em converter os Guarani, eles eram convertidos pelos Guarani, já que estes “evangelizavam” o pensamento cristão ocidental em um aspecto fundamental, como era o fazer surgir ou ser a partir do dom. Dali veio esta espécie de vida anticolonial no seio da própria colônia, que, a longo prazo, não podia durar enquanto a “conversão” não fosse mais englobante.
Título: Este tipo de reflexões ocupa a terceira parte. A história da “destruição” da América confunde-se em grande parte com a desestruturação de seu sistema de reciprocidade, destruição esta que não só alcança o sistema econômico, mas também o político, o cultural e o religioso. Que houve alguma experiência em que a economia indígena foi preservada, como parece ter acontecido nas Reduções Jesuíticas, mostra dramaticamente, dado o frustrante desfecho que tiveram, a precariedade das alternativas parciais e localmente “reduzidas”.
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