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Título: Captura del ayoreo José Iquebi
Assunto: Culturas dos povos das terras baixas
Títulooo: sulamericanas, historiografia dos povos
Títulooo: ameríndios
Autor: Deisy Amarilla
Formato: 15x21,5
Número de páginas: 298
Editora: CEADUC 2012
ISBN: 9789995376505
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Deisy Amarilla

Captura del ayoreo José Iquebi

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R$ 144,00

Lembro que meu papai me disse: “Iquebi, não te afastes muito de nós, tu és ainda muito pequeno, e na mata pode te acontecer algo” (afastado do acampamento)… Olhei para meu papai e minha mamãe, e fui com meu amigo, a quem nunca mais voltaria a ver.
Estando já um pouco longe de meu papai e minha mamãe, de repente encontramos umas pegadas que nunca tínhamos visto antes, que não conhecíamos. Meu colega me disse para seguir essas pegadas, e assim fizemos.
Naquele dia, lembro isto muito bem, fazia muito sol e não estava muito frio. Meu amigo e eu brincávamos e ríamos muito, nós ayoreos sempre rimos muito de qualquer coisa. Logo depois escutamos algo terrível, um grande ruído, e não sabíamos o que era. Ficamos assustados e começamos a correr, mas eu era muito pequeno e não podia correr muito rápido. Aí apareceram quatro caras em cima de uns animais que eu nunca tinha visto; corremos o que podíamos, meu amigo para um lado e eu para o outro, e não sei onde ele se meteu, mas os quatro caras perseguiram a mim com seus cavalos. E quando me alcançaram, um deles tentou atirar em mim com uma pistola, mas o outro agarrou a mão dele e assim não me matou, mas me pegaram com um laço, uma piola (na época eu não sabia o que era piola, mas hoje o sei). Quando me laçaram com a piola tentei de novo fugir, pensei: eu sou ayoreo, sou mais forte que eles; mas minha tentativa foi inútil.
[…] Quando chegamos a Bahía Negra, me tiraram finalmente a piola, mas não foi para me libertar nem nada, era para me botar dentro de uma jaula. Naquele momento quis escapar, acreditei que ia conseguir, mas não pude… a jaula estava chaveada. Botaram-me na jaula em Bahía Negra e assim me levaram até o porto de Asunción. Não conheci ninguém, nunca tinha visto as coisas que estava vendo. Essa jaula onde me encerraram era pequena, como de um metro, e não podia ficar em pé, mas às vezes me tiraram um pouco para eu fazer minhas necessidades. Eles no queriam que eu fizesse xixi ou cocô ali dentro da jaula, por isto me tiraram, mas eu não podia fazer cocô porque não comia nada. Fazer xixi podia sim, porque tomava só água, e me tiraram para fazer xixi dentro do barco, embaixo, na água, e fiquei também doente, me doía a cabeça, tive gripe e tosse; coisas que nunca tive e que não conheci na mata.

ConocíConheci José Iquebi faz vários anos na comunidade de Jesudi, quando eu estava escrevendo a história da comunidade, e numa das noites em que nos reuníamos ao redor da fogueira para recordar os tempos antigos, José me contou sua história. Escutando seu relato trágico lembrei um escrito de Primo Levi sobre Auschwitz, em que ele conta que os oficiais nazistas diziam aos prisioneiros judeus que ninguém ficaria vivo para dar testemunho do ocorrido, e mesmo se sobrevivessem, ninguém iria acreditar neles, as pessoas diriam que seu testemunho era demasiado monstruoso para ser verdade. No caso de José Iquebi, graças à valiosa iniciativa e ao trabalho dedicado de Deisy Amarilla, seu testemunho está agora escrito nas páginas deste livro, como memória lacerante não só de sua vida pessoal, mas da tragédia e agonia de todo povo Ayoreo.
ConocíMarilin Rehnfeldt

ConocíJosé Iquebi pertence ao povo indígena ayoreo. Os ayoreo eram conhecidos antigamente pelo nome de “Pyta Jovái”, por causa do tipo de sandálias que usavam, era una sola retangular de couro de tapir que, portanto, não deixava as pegadas dos dedos. Daí a suposição e a crença de que se tratava de seres sem dedos.
As rivalidades entre diferentes grupos ayoreo, entre ayoreo e outros indígenas, bem como entre ayoreo e brancos, fizeram com que, no passado, se dessem sérios enfrentamentos.
Foram muito perseguidos por militares, fazendeiros, caçadores e pelos buscadores de petróleo que abriram caminhos no Chaco.
Um jornalista uruguaio, assim relata Miguel Chase-Sardi, fotografou numa picada do Chaco uma placa que dizia: “Faça Pátria, mate um mouro”. E aos soldados que matavam um mouro dava-se como prêmio a volta para Asunción, com a conseguinte baixa do serviço militar. […]
Os jesuítas tentaram fundar uma redução para os indígenas zamuco, que incluía também os ayoreo, no atual território paraguaio; mas ela durou poucos anos e os indígenas se dispersaram. Desta redução não sobrou nada, porque era de madeira e terá se queimado facilmente. Os ayoreo, nômades, combativos, aventureiros e orgulhosos de ser ayoreo, não conseguiram suportar a vida sedentária, ordenada e tranquila de uma redução, e voltaram a seu estilo de vida tradicional, escondendo-se no Gran Chaco e reproduzindo sua cultura livremente.
ConocíDeisy Amarilla

ConocíEsta história singular e quase novelesca entre a ficção e a realidade é um testemunho da crueldade perpetrada contra um menino indígena inocente. Aqui foram usurpados importantes elementos culturais do povo Ayoreo: o território, os vínculos clânicos e familiares, a língua, as crenças, os rituais tradicionais e os símbolos mais fortes da cultura ayoreo. A história dos países latino-americanos registra atitudes discriminatórias e abusivas, depreciativas e assimilacionistas.
ConocíJosé Zanardini